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Kado Mathia

Blog · CRM e processo comercial

Meu time não usa o CRM

Sala de reunião vazia com uma cadeira afastada e virada de costas para a mesa.

Publicado em 09/09/2026 por Ricardo Santos Mathia, o Kado. Leitura de 7 minutos.

Na maioria das contas que eu abri, o time estava registrando. Só que fora do campo. A informação existia, digitada no lugar errado, onde nenhum relatório alcança.

Isso muda o que precisa ser feito. Quem não registra nada tem um problema de disciplina. Quem registra fora do campo tem um problema de desenho, e cobrar mais no daily não conserta desenho.

Como assim, registrando fora do campo?

O caso mais claro que eu tenho medido é de uma indústria B2B. Lendo a API do CRM para montar a devolução de vendas para a mídia, o campo de origem estava praticamente vazio na base inteira.

2.127 de 2.159 negócios sem nenhuma origem no campo próprio. Só que a procedência estava lá: o time digitava no nome do negócio. Ler só o campo estruturado alcançava 8 negócios. Lendo também o que estava digitado no nome, 1.620.

Ninguém ali estava com preguiça. O time inventou um jeito de guardar a informação porque precisava dela, e o jeito que inventou foi o que estava à mão. O campo certo era o que não servia.

Fonte: leitura direta da API do CRM da conta, em 14/08/2026. Setor generalizado.

Por que o time desvia do campo?

Três motivos, e eu vejo os três se repetirem em setores sem nenhuma relação entre si:

  • O campo pergunta o que o vendedor ainda não sabe. Origem, segmento e porte costumam ser pedidos na criação do negócio, que é o momento em que ele menos sabe. Aí ele preenche qualquer coisa ou pula.
  • A etapa não descreve como aquele time vende. Funil copiado de modelo tem etapa que não existe na operação e não tem a que existe. O vendedor então deixa tudo parado numa etapa só, que vira depósito.
  • Nada volta para quem preenche. Se o vendedor preenche e nunca recebe nada em troca, ele está alimentando o relatório do gestor. É trabalho a mais sem retorno, e some primeiro na semana corrida.

Os três têm a mesma forma: o custo de preencher está com o vendedor e o benefício está com outra pessoa. Enquanto isso for verdade, o preenchimento depende de cobrança, e cobrança cansa antes do time.

E se o campo vazio for culpa do marketing?

Acontece, e eu já fui a causa. Numa conta de indústria, o campo que dizia a intenção do lead estava vazio em todos os negócios do recorte que eu estava analisando.

58 negócios, o campo de intenção vazio em todos. A causa não era o time comercial. Era o formulário do anúncio, que tinha sido enxugado para três campos para baixar o custo por lead, e o campo de intenção foi um dos que saíram. O dado nunca chegou ao CRM porque ele nunca foi coletado.

Vale conferir isso antes de qualquer conversa com o time. Reclamar de preenchimento quando quem apagou o dado foi o marketing é acusação errada, e ela custa caro na relação com o comercial.

Fonte: apuração na conta, em 25/08/2026. Setor generalizado, número de negócios do recorte analisado.

Cobrar preenchimento na reunião resolve?

Melhora por duas ou três semanas e volta. Cobrança funciona enquanto alguém está olhando, e o que você quer é um registro que sobreviva à semana em que ninguém olhou.

Além disso, cobrança produz um efeito colateral ruim: o time passa a preencher para não ser cobrado, e não para registrar o que aconteceu. Campo preenchido com qualquer coisa é pior que campo vazio, porque campo vazio se enxerga e dado errado não.

Se isso está descrevendo a sua operação, me chama. São três perguntas rápidas antes, para eu já chegar sabendo do que se trata.

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O que fazer, na ordem

A ordem importa, porque as primeiras tornam as seguintes possíveis:

  • Leia o que já está preenchido antes de mudar qualquer coisa. Inclusive o nome do negócio e as anotações. É ali que costuma estar o que o time realmente registra, e isso te diz o que ele considera importante.
  • Corte campo obrigatório que o vendedor não tem como saber na hora. Se a informação só existe depois da primeira conversa, o campo pertence a uma etapa adiante, não à criação.
  • Redesenhe as etapas com o time, e não para o time. Uma hora de reunião perguntando o que acontece de verdade entre o lead entrar e a venda fechar. As etapas saem dessa conversa.
  • Faça a origem entrar sozinha. Origem preenchida à mão é a que mais falha e a que menos precisa de gente: ela chega no formulário, no parâmetro do link ou na integração. Campo que se preenche sozinho não depende de disciplina.
  • Devolva alguma coisa para quem preenche. Lista de quem não é contatado há dias, aviso de negócio parado, qualquer coisa que faça o CRM trabalhar para o vendedor. É o que transforma obrigação em ferramenta.

Note que quatro das cinco não pedem nada do time. Elas mudam o sistema para caber no trabalho que já existe, o que é bem mais barato que mudar o hábito de todo mundo.

Cuidado com o painel do próprio CRM

Na hora de conferir se melhorou, o painel da plataforma pode te dar exatamente a resposta que você quer ouvir. Numa conta de varejo, o campo de tempo de espera do atendimento tinha mediana zero, e noventa por cento dos casos abaixo de cinco minutos.

Mediana zero de espera, e a espera real era de treze horas. O campo media o tempo até o atendimento ser atribuído a alguém, e a atribuição é automática, então ele registra a velocidade do sistema e não a da pessoa. Os dois campos de tempo também só vinham preenchidos em atendimento finalizado, que eram 15% da base.

Antes de usar um número do painel para dizer que o time melhorou, vale saber o que aquele campo mede. O nome do campo raramente conta.

Fonte: leitura da API pública da plataforma de atendimento da conta, em agosto de 2026. Setor generalizado.

Como saber se melhorou

Três números, e nenhum deles é quantidade de campo preenchido:

  • Proporção de negócios com origem registrada, contando só o campo estruturado. É o que decide se dá para ligar venda com campanha.
  • Proporção de leads com primeiro contato registrado. É o gargalo que mais se repete, e ele não aparece em relatório de mídia nenhum.
  • Quantos negócios estão parados na mesma etapa há mais tempo que o seu ciclo normal de venda. Se esse número não cai, o funil virou depósito de novo.

Se você não consegue fechar esses três, o problema de medição vem antes do problema de adoção. Escrevi sobre isso em como saber se o tráfego pago está dando resultado, que é a conta que fica impossível quando o CRM não registra origem.

O que isso não resolve

CRM bem desenhado não faz ninguém vender mais sozinho. Ele para de esconder o que está acontecendo, e isso costuma revelar problema em vez de resolver: lead que ninguém atendeu, etapa onde tudo morre, vendedor com carteira parada.

É desconfortável e é o ponto. Enquanto o dado não existe, toda reunião de resultado é discussão de impressão, e ganha quem fala mais alto.

Uma ressalva sobre os números deste texto

Os quatro números vieram de contas que eu operei, com a data da apuração ao lado de cada um e os setores generalizados de propósito. Nenhum deles é previsão do que vai acontecer na sua operação, e a proporção que eu encontrei numa conta não é estatística de mercado. Eles estão aqui porque mostram o formato do problema, que é o que se repete, e não o tamanho dele.

Continua em

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Eu olho o que já está preenchido, inclusive o que está digitado fora do campo, e te digo o que dá e o que não dá para medir hoje. Se depois disso fizer sentido trabalhar junto, a implantação está descrita aqui, com preço.

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